Enquanto o longa-metragem Cine Argus, o Cinema de Seu Duca passa por seus ajustes finais e entra na contagem regressiva para sua estreia, Memórias do Cine Argus, o curta que lhe deu origem, continua sua carreira em festivais.
Dessa vez, nosso curta-metragem foi selecionado para o Festival de Cinema Brasileiro da Baixada Fluminense - Vercine, a ser realizada na cidade de Duque de Caxias - RJ em junho deste ano.
Blog de produção dos documentários "Memórias do Cine Argus" e "O Cinema de Seu Duca", que tem por objetivo resgatar, em diálogo com a sociedade, a história do cinema de rua que movimentou a vida cultural do município de Castanhal (PA) e influenciou diversas gerações ao longo de seis décadas, e a saga de Manoel Carneiro Pinto Filho, mais conhecido como Duca do Cinema.
sábado, 30 de abril de 2016
terça-feira, 19 de abril de 2016
Corte e (des)montagem
Mais uma crônica de Amílcar Carneiro, que comenta o importante trabalho de revisão de filmes, que no Cine Argus foi desenvolvido por funcionários como Sabá e Ademar. A tesoura é o grande símbolo de uma época em que o cinema prescindia dos esforços e habilidades de revisores de película para garantir a projeção de filmes danificados. Do apogeu ao declínio da atividade nos anos 80-90, com o fechamento em massa dos cinemas de rua, Amílcar relata com maestria mais essa curiosidade.
Corte e (des)montagem
Já dizia François Truffaut: a
única arte eminentemente cinematográfica é o corte e montagem. E explica: a
fotografia já existia, e a interpretação também, que veio do teatro. E é a pura
verdade. No principio o cinema era apenas o teatro filmado. Depois da
aprimoração da técnica, ou recurso, do corte e montagem é que o cinema
realmente ganhou personalidade, estilo próprio. Corte e montagem é uma
linguagem universal, tal como as notas musicais.
Mas o corte da película não seria
privilégio nem obrigação só dos montadores de um copião em laboratório. A
tesoura era presença obrigatória onde quer que estivesse uma película de
celulóide a ser exibida. Se a fita quebrava, tinha que ser emendada; e para
isso tinha que ser cortada de maneira que não fosse alterada a seqüência dos
fotogramas para não comprometer, também, o enquadramento na tela. Independente
de a fita quebrar ou não, a cada exibição se fazia necessária uma revisão na
mesma; caso houvesse algum risco ou estrago que comprometesse o fotograma, este
teria que ser retirado. Lá entrava de novo a tesoura e a cola.
Foto: Chico Carneiro
Todo operador de cinema tinha também
que ser revisor. Quando a fita era nova não havia problema. Mas nem sempre era
assim. Principalmente no interior, onde as fitas chegavam já com bastante tempo
de exibições quase que diárias, às vezes anos. Isso mesmo, anos. Até meados dos
anos 80, todo filme a ser exibido em território nacional recebia um certificado
de censura da policia federal com validade para cinco anos. Depois disso, se
houvesse interesse da distribuidora em renovar a censura, isso era feito por
mais cinco anos; caso contrário, as cópias eram recolhidas e incineradas.
As fitas muito rodadas chegavam por
aqui em estado lamentável de conservação. Vários fatores contribuíam para isso,
tais como: exibições constantes sem revisão, mau trato no enrolamento das
partes, exibições em projetores velhos e mal conservados e finalmente o próprio
descaso da maioria dos projecionistas, também chamados de operadores.
Um bom operador era também um bom
revisor. Alguns faziam verdadeiros milagres para exibir, sem problemas, cópias
completamente dilaceradas pelo uso. Dois dos melhores operadores que conheci
foram o Odílio e o Ademar. Ambos escolados pelo papai, que desenvolveu técnicas
pessoais de aproveitamento de fitas estragadas.
Toda companhia distribuidora de filmes
tinha uma sala de revisão com, no mínimo, quatro revisores. As grandes
companhias americanas levavam tão a sério a revisão, que tinham até um sistema
de contagem de fotogramas. Era uma maneira de forçar o exibidor a tratar bem da
fita. O filme saia para exibição em uma praça com tantos fotogramas em cada
parte. Havia uma certa tolerância de perda; a partir daí era cobrado do
exibidor determinado valor por cada fotograma perdido.
Sabá e os projetores do Cine Argus
Conheci as filiais de distribuidoras
norte americanas em Recife, no ano de 1982. Naquele tempo, ainda, as salas de
revisão ocupavam o maior espaço físico das distribuidoras. Algumas delas com
até oito revisores trabalhando ininterruptamente nos dois expedientes. Os
revisores emitiam o boletim de revisão, que era um documento tão importante
quanto obrigatório a acompanhar os filmes.
Fato interessante na história de emenda
de filmes é que era obrigatório o uso de uma cola especial à base de acetona; e
terminantemente proibido o uso de fita durex, procedimento muito usado por
alguns operadores. Se fosse encontrado algum vestígio de durex em uma cópia de
filme, o exibidor responsável pela falcatrua estaria fatalmente na lista negra
dos distribuidores.
Hoje, as fitas são emendadas com uma
fita durex especial. A própria película já não aceita mais as colas para
filmes. Parece que os pregadores de durex, como eram chamados os operadores que
não sabiam usar a cola, estavam certos.
Mas entre cola e durex, a tesoura
continuava indispensável junto ao celulóide. Ficou até famosa no tempo da
ditadura quando os filmes eram censurados e mutilados com cortes absurdos. Nos
certificados de censura emitidos pela Polícia federal, vinham detalhadas as cenas
a serem cortadas e até o motivos dos cortes. Lembro de alguns em filmes
nacionais: “cortar a cena em que o personagem principal atravessa uma rua e ao
fundo aparece uma favela”. Motivo: a mesma deturpa a realidade nacional.
“Cortar a cena da praça em que aparece um mendigo”. Motivo: o mendigo não tem
nada a ver com a história do filme.
Sabá operando os projetores do Cine Argus
Nos anos oitenta, quando surgiram os
filmes de sexo explícito, algumas distribuidoras de São Paulo, todas ditas
independentes (termo usado para distinguir distribuidoras particulares das
estrangeiras) usaram e abusaram da tesoura, fazendo trambiques com partes de
filmes. Eles pegavam seqüências mais ousadas de sexo em uma fita e encaixavam
em outras. Às vezes juntavam uma série de seqüências, inventavam um título e
estava pronto um novo filme. Eu, como exibidor, paguei o pato várias vezes:
simplesmente o público pensava que o dono do cinema é que era o responsável
pela prática desonesta.
Paralelo a isso, as grandes
distribuidoras norte americanas praticavam, cada vez mais, o sistema de
lançamento nacional. A ordem era faturar mais em menos tempo, com o aumento do
número de cópias para exibição. Assim os cinemas recebiam cópias sempre novas,
ficando mais fácil a tarefa de revisão de fitas. Com a diminuição de salas de
exibição, o final dos anos oitenta e inicio dos noventa marcou o fechamento em
massa dos cinemas do interior as cópias passaram a ter menor rotatividade,
diminuindo significativamente a necessidade de revisão, e por conseguinte o
número de revisores nas empresas distribuidoras. Houve uma grande crise de
desemprego na categoria. Empresas que mantinham até oito revisores em seu
quadro passaram a precisar de apenas um.
Em algumas delas, funcionários de outro setor passaram a acumular também
a tarefa de revisor. Em geral cartazistas ou remessistas ficavam com essa
tarefa. Prática muito comum entre as distribuidoras foi também a de unirem em
um só espaço o serviço de todas. Dessa maneira, apenas um funcionário de cada
setor servia a mais de uma empresa diminuindo custos. Uniram-se Columbia, Fox e
Warner em um só escritório, mantendo apenas um revisor para as três, que em
épocas anteriores mantinham, cada uma, entre quatro e oito revisores. A UIP,
que já agregava quatro gigantes da cinematografia: Metro, Universal, United e
Paramount, passou a manter apenas um gerente utilizando o espaço físico de uma
independente, a Aquárius, com apenas um funcionário para as tarefas de revisão,
embalagem e remessa de filmes.
O sistema de lançamento nacional –
alguns casos com mais de cem cópias em exibição simultânea – trouxe um novo
problema para as distribuidoras: a falta de espaço para guarda das mesmas.
Depois de exibidas, as cópias encalham; por serem volumosas fica cada vez mais
difícil o armazenamento. As filiais das distribuidoras receberam ordem para se
livrarem das cópias que já não tem mais onde serem exibidas mas não, antes, sem
um corte drástico. Um corte para desmontagem. Os rolos são cortados ao meio,
como pizzas, e jogados ao lixo. Dezenas e até centenas de cópias de um mesmo
filme são destruídas atualmente por este processo. Para partir o rolo ao meio,
se faz necessário uma ferramenta bem mais forte que a tesoura. É a machadinha.
Criou-se então uma nova função na cinematografia: cortador de fita. Mas não se
pense que houve geração de novos empregos. O cortador é o próprio revisor, que
na falta do que fazer com a tesoura, usa agora o machado.
Por Amílcar Carneiro
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Histórias do Leitor
Volta e outra um leitor ou leitora (seja do blog, seja do facebook) entra em contato contando uma história interessante que vivenciou no Cine Argus e de alguma forma marcou sua vida. São as coisas mais diversas, interessantes e inusitadas possíveis: romances, micos, fatos históricos, engraçados, traquinagens... Algumas dessas pessoas foram entrevistadas e compartilham essas histórias em nosso documentário. Mas, muitas histórias não estão gravadas e não serão, portanto, contadas no filme. A lista de potenciais entrevistados/as era imensa e não cabia no mesmo.
Por isso, aproveitando o prestígio ao nosso blog e à página do filme no facebook, e com o intuito de garantir o registro do máximo de memórias possíveis sobre o Cine Argus, estamos criando um espaço semanal no blog/facebook chamado "Minha história com o Cine Argus". Leitores e leitoras interessados poderão enviar suas histórias, preferencialmente com alguma foto, para o email edivaldo.cinema@gmail.com. Sua história pode ser publicada e assim você estará contribuindo para o resgaste das memórias de nosso querido cinema. E se sua história for publicada, você ainda ganha um dvd do filme.
Mande sua história pra gente! Vamos adorar publicá-la! E com certeza muita gente vai curtir conhecê-la!
Por isso, aproveitando o prestígio ao nosso blog e à página do filme no facebook, e com o intuito de garantir o registro do máximo de memórias possíveis sobre o Cine Argus, estamos criando um espaço semanal no blog/facebook chamado "Minha história com o Cine Argus". Leitores e leitoras interessados poderão enviar suas histórias, preferencialmente com alguma foto, para o email edivaldo.cinema@gmail.com. Sua história pode ser publicada e assim você estará contribuindo para o resgaste das memórias de nosso querido cinema. E se sua história for publicada, você ainda ganha um dvd do filme.
Mande sua história pra gente! Vamos adorar publicá-la! E com certeza muita gente vai curtir conhecê-la!
Fotos: Chico Carneiro.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
As Memórias de Pedro
Pedro Carneiro, o segundo filho de Duca e Nila, tem uma
participação modesta no curta-metragem Memórias
do Cine Argus. No curta, ele aparece em falas breves sobre os auto-falantes
do Argus e sobre a garotada que não tinha dinheiro para comprar o ingresso, mas
ia pra frente do cinema na expectativa de conseguir entrar. Contudo, em Cine Argus, o Cinema de Seu Duca, que
será lançada em breve, sua participação será bem maior.
Pedro Carneiro em Memórias do Cine Argus (2014)
O depoimento de Pedro é uma imensa colcha de retalhos,
costurada por meio de diversas lembranças a respeito do cinema, envolvendo os
assuntos mais variados, como o início da amizade do pai com Paulo Cavalcante
(que chegou em Castanhal em 1938 com um projetor Devry portártil e iniciou o
Cine Argus em parceria com Seu Duca, nos fundos de um armazém), os trabalhos
artesanais de produção das placas dos filmes, os bailes de carnaval realizados
no salão do Argus, os seriados, as sessões promocionais nas quais “senhoras e
senhoritas” não pagavam, a expansão do circuito da Empresa de Cinemas Argus
Ltda, o princípio de incêndio que forçou a família a não morar mais no prédio
do cinema... Ouvir Pedro Carneiro é fazer um passeio por vários acontecimentos do
Argus. Alguns sem grande aprofundamento (a memória é traída pelo tempo), mas
certamente todos dignos de nota. Várias dessas histórias serão recuperadas em Cine Argus, o Cinema de Seu Duca, nosso documentário que será lançado em breve.
Com esta post sobre Pedro Carneiro, encerramos a
apresentação dos 15 entrevistados do curta Memórias
do Cine Argus. Em próximas posts, apresentaremos novos entrevistados que se
somam a estes 15 para contar suas memórias no novo longa. Aguardem.
terça-feira, 12 de abril de 2016
Cine Argus, o Cinema de Seu Duca passa por Exibição-Teste
Na noite do dia 09 de abril de 2016, na casa de Amílcar
Queiros Carneiro, nosso documentário de longa metragem sobre o Cine Argus foi
exibido pela primeira vez, em versão ainda não definitiva, para uma pequena platéia,
formada por membros da família Carneiro e outros convidados. O objetivo foi
avaliar a recepção do público e ouvir críticas, a fim de preparar a versão
final do filme. Além do produtor do filme Amílcar Carneiro, estiveram presentes
o produtor e diretor Edivaldo Moura e o historiador do projeto cinematográfico Rafael
Santos.
Superando as expectativas, houve excelente receptividade ao
filme, que foi apresentado com um novo nome: Cine Argus, o Cinema de Seu Duca. Resultado de um projeto vencedor
do IV Prêmio PROEX de Arte e Cultura, da UFPA, o longa é derivado do
curta-metragem Memórias do Cine Argus.
Mas, ficou bem diferente do curta (à exceção do prólogo e do epílogo, que
permaneceram quase que inalterados) e ganhou personalidade própria. Não houve
comparação entre o longa e o curta, mas os comentários do público presente apontaram
que são filmes diferentes, cada qual com suas qualidades.
É certo que as
comparações e preferências existirão, mas o receio que havia sobre o longa
ficar cansativo e virar uma repetição estendida do que o curta já falava, parece
não existir mais. É possível que alguns prefiram o curta, mais sintético na
apresentação da história do Argus. E que outros gostem mais do longa, que
inicia contando as origens do cinema de Castanhal desde o encontro de Seu Duca
e Paulo Cavalcante no armazém de Seu Lins e Seu Anastácio, nos fundos dos quais
o Cine Argus projetou seus primeiro filme, e aborda assuntos inéditos no curta
e desenvolve outros pelos quais o Memórias
dava rápidas “pinceladas”. Mas, o certo é que são dois filmes diferentes,
embora compartilhem alguns trechos comuns.
Cine Argus, o Cinema
de Seu Duca ficou com 98 minutos, tempo que deve sofrer pequenas alterações
após a efetuação dos ajustes a partir das críticas do público presente. Em
breve, serão feitas exibições públicas do filme em Castanhal. Como diria o
pintor de cartazes e locutor de nosso inesquecível cinema: “Departamento de
Publicidade do Cine Argus. Não percam! Em breve, neste cinema, o filme Cine Argus, o Cinema de Seu Duca!
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